A dor e a delícia
20/02/2015 19h09 - Atualizado em 20/02/2015 19h53

CINZAS

CINZAS

Foi assim durante anos. O Carnaval acabava e ela se recusava a voltar à realidade. Naquele ano não seria diferente. Nem o dia chuvoso e cinza da quarta-feira, seria capaz de tirar dela todas as lembranças coloridas que trazia na alma.

Tinham sido dias de pura magia. Chegar ao clube da cidade e vê-lo ali, short branco, camiseta amarela, os cabelos lindamente despenteados, fez o coração dela saltar. Quando ele sorriu e foi ao seu encontro, Cinthia parou momentaneamente de respirar.

- Fiquei me perguntando se você viria pra cá esse ano, disse Lucas enquanto a beijava no rosto.

- É mesmo? Respondeu sem conseguir esconder a surpresa diante do interesse dele.

- Você está linda. Essa provavelmente é mais uma daquelas roupas que passou meses fazendo, né?

- Acertou! Comecei em Setembro. Também achei que ficou legal, disse dando uma piscadela.

Quando estavam juntos, o tempo parecia parar e não havia nenhum outro som, nenhum outro cheiro. Nada que não fosse alusivo aos dois.

Foram para abraçados para o centro do salão e passaram a noite dançando, rindo, conversando. Havia uma sede em ambos de colocar os assuntos em dia.

No final do baile, exaustos, sentaram-se no chão forrado de confete e se beijaram demoradamente. Ele segurou o rosto dela entre as mãos, e Cinthia fechou os olhos devagar – como tinha esperado por isso!

Combinaram um encontro na matinê do dia seguinte, mas ele não apareceu. Tudo bem, ele deve estar cansado, justificou.

A noite, entrou no salão, olhos ansiosos, coração aos pulos a procura de Lucas. Quando o achou, não gostou nada do que viu. Lá estava ele, conversando com Rita, a moça que andava tirando sua tranquilidade há algum tempo. Pensou em chegar perto dos dois, puxar conversa, mas quando viu a mão de Lucas em volta da cintura da temida moça, recuou.

Passou pelos dois com passo duro e ar enfurecido, em direção ao bar. Não tinha certeza se a viram, mas minutos depois Lucas estava encostado ao seu lado no balcão.

- Estava te esperando, ele disse.

- É, eu percebi, respondeu com ar cínico.

- Larga de ser boba, disse enquanto agarrava sua cintura e a levava de volta ao salão.

No meio do caminho, ele parou e a beijou apaixonadamente. Os amigos em volta começaram a gritar, bateram palmas e jogaram serpentinas nos dois.  Cinthia, tímida, olhou Lucas nos olhos e ele a abraçou docemente.  A noite seguiu mágica. Eles se divertiam muito juntos.

Os dias seguiram assim, cheio de carinho.

No auge dos seus dezenove anos, Cinthia sabia que Lucas era o seu grande amor. Não conseguia pensar em outro companheiro para sua vida. Já Lucas não compactuava dessa certeza. Queria conhecer o mundo, queria conhecer outras mulheres, não estava pronto para dividir a vida com uma única pessoa. Imaginava, lá no fundo, que Cinthia seria uma ótima companheira para a vida, mas ela teria que esperar.

Na terça-feira, última noite de carnaval, Lucas resolveu ir buscar Cinthia em casa. Ela ficou feliz com a surpresa. Seguiram a pé, abraçados, até o clube. Passaram a noite juntos, entre beijos, abraços e algumas promessas de que trocariam cartas e telefonemas. Quando a banda anunciou o fim, eles se olharam emocionados, ela tinha lágrimas nos olhos. A distância era a maior inimiga daquele amor.

No banco de trás do carro do pai, Cinthia voltava pra casa enquanto olhava o céu cinza e fixava o pensamento em Lucas, seu sorriso, sua voz, suas promessas. Quarenta dias custam a passar, mas a certeza do reencontro na Páscoa enchia seu coração de esperanças.

Enquanto isso, Lucas sentia os pingos da chuva e torcia para o tempo estar bom em Ubatuba no próximo feriado.

 

 

 

 

 

A dor e a delícia

Chris Carolo – Uma mulher que aprendeu, a duras penas, que para ser feliz é preciso estar presente. Seja na dor, seja na delícia.

“A Dor e a Delícia” retrata algumas memórias da autora e conta histórias de ficção, ou não, através de contos e crônicas. Memórias de uma infância feliz, de uma adolescência nem tanto e de uma vida adulta pautada na verdade e na fidelidade daquilo que se é.

Histórias divertidas, ouvidas de amigos. Contos e crônicas que retratam romances, dramas e até mesmo algumas comédias.

“A ideia é que a leitura seja leve, acessível e toque de alguma forma quem se dispuser a compartilhar desses momentos comigo.”

Imagem DANIEL BASSO.

 

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.


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