A dor e a delícia
12/08/2015 09h05 - Atualizado em 12/08/2015 09h06

DORMINDO COM O INIMIGO

DORMINDO COM O INIMIGO

Dormindo com o Inimigo.

 

Lídia perdeu o chão por um minuto. Reconhecer o ex marido nas descrições do texto recebido, pareceu, num primeiro momento, um pouco mais do que ela podia suportar.

"Sociopatas têm sérias dificuldades para sentir empatia em relação aos outros. Em outras palavras, eles acham extremamente difícil e em alguns casos até impossível, se colocar na posição da outra pessoa. É por causa disso que tantas vezes eles são indelicados e insensíveis, divertindo-se em depreciar."

A cada frase as lembranças, de situações que se encaixavam perfeitamente na descrição, desfilavam em sua mente. 

"Sua predisposição para falar o que querem e o seu narcisismo exacerbado, colocam  seus opositores como maus e culpados por tudo".

Plínio a fez acreditar que as suas ex mulheres  eram  as culpadas pelos desastrosos casamentos anteriores.  Lídia nunca se permitiu questionar sobre a provável parcela de culpa que ele tinha na história toda. Ele era incrivelmente convincente. Nem o fato de ser a quinta mulher a estar na vida dele lhe parecia estranho.

- Ah, agora ele encontrou alguém que o compreende, que o respeita, que o permite ser o que é! Dizia constantemente, a iludida!

Quando o casamento acabou, sentiu-se culpada e enumerou razões para o fim. Em todas, ela o absolvia da culpa. Ela,  não fez tudo o que poderia para manter a relação saudável. Ela, mudou de ideia sobre um plano de vida que ele queria muito. Ela, aceitou pacificamente a decisão dele de ir embora. Ela, não procurou conversar mais sobre o assunto. Nem quando -  quinze dias depois de sair de casa - ele começou a aparecer em fotos com outra mulher, ela entendeu quem ele era de verdade.

Agora, diante da leitura tão clara e precisa, começava a se dar conta de que tinha sido sim, mais uma vítima dessa pessoa doente.

"O sociopata tem emoções rasas. Ele é extremamente habilidoso em demonstrar amizade, carinho e consideração para ganhar a confiança das pessoas. Mas suas emoções em grande parte são superficiais e as demonstrações de cuidado não passam de mero teatro. Até mesmo suas demonstrações de raiva são artificiais. Logo depois de um ataque de ira, retorna ao estado normal, deixando claro que não provou do sentimento como uma pessoa normal provaria."

- A briga sem sentido, o empurrão, os gritos -  no dia que sentiu que a separação aconteceria - e momentos depois, uma fala mansa, pontuada de choro e coitadismo. Ele, mais uma vez se posicionamento como vítima de uma situação criada por ela.

"O sociopata, é bastante satisfeito em ser como é. Quando submetido a algum tipo de psicoterapia, é mais provável que se utilize das informações obtidas nas sessões para aperfeiçoar seu jogo de manipulação e sedução."

Plínio fez terapia durante anos. Dizia que mais do que um terapeuta, Edgar era um amigo com quem dividia as emoções da vida.

- Claro, pensou Lídia. Por isso não havia progresso em questões básicas, como o suposto sofrimento pela perda do filho. Precisava desse sentimento para usar em momentos de questionamento ou cobrança.

"Sociopatas, algumas vezes fazem uma mudança positiva quando são pegos em algum ato irregular ou quando seus planos falham. Raramente admitem que são maus indivíduos, que cometeram um dado erro ou que necessitam do perdão de alguém mas, em algumas situações - e sem pensar duas vezes - eles simplesmente podem mudar de comportamento, surpreendendo a todos".

Quando Lídia descobriu que Plínio a estava traindo com uma ex namorada, ele admitiu o erro, chegou a pedir "perdão" e sugeriu que adotassem uma criança. De repente tornou-se mais carinhoso e atencioso, planejando reformas na casa para receber o novo membro da família. Envolveu-se no processo doméstico como nunca.  Manteve a farsa por alguns meses, mas logo voltou ao comportamento predominantemente egoísta.

"Sociopatas, como bons narcisistas, são egoístas. Agem como se fossem o centro do universo; Acham que são os indivíduos que falam melhor, que se vestem melhor e que têm melhor capacidade de enfrentamento dos problemas da vida. Fazem as suas próprias leis, por não compreenderem o significado do bem comum".

Plínio não fugia em nada a descrição. Lídia mal podia acreditar no tempo que passou sofrendo com o fim de uma relação que ela considerava perfeita mas, que na realidade, era um via de mão única.

"Alguns sociopatas,  são incapazes de se integrar a qualquer grupo. Só o que eles querem é o que interessa. Na realidade, só levam em consideração as regras sociais para utilizá-las a seu favor. Por causa disso, muitos colecionam ex-amigos. Tendem a ser solitários, alguns migrando de grupo em grupo. No ambiente familiar, também tem dificuldade de adaptação".

Ex amigos. Realmente havia uma coleção deles. Todos culpados, é claro, pelo afastamento. Nunca Plínio. Todos sem a mínima capacidade de compreensão, segundo ele, que fazia questão de dizer que não faziam a menor falta. Em alguns momentos, quando ser a vítima se fazia necessário, usava a suposta solidão de amigos, para justificar alguns atos. Nunca se adaptou à família. Se fez presente e solidário,  só quando a doença do pai foi extremamente conveniente para justificar o afastamento e as noites fora de casa. Sentia assumida vergonha da irmão mais velha, criticava o comportamento da mãe, falava que cozinhava mal, fazia chacota das iniciativas dela com as artes manuais.

"Por serem indivíduos extremamente competitivos, os sociopatas transformam interações normais da vida, como diálogos sobre assuntos sem grande importância, em disputas de morte, sempre desejando impor sua opinião como a única correta e dificilmente dando o braço a torcer, mesmo em face de todas as provas que eventualmente venham a receber em contrário."

Lídia riu. Riu alto, em bom tom. Lembrou de uma discussão ridícula sobre um determinado programa de televisão, onde ela afirmava uma coisa e ele outra. Quando, no dia seguinte, achou a informação que comprovava que tinha razão, mandou para ele por e-mail. A reação dele foi péssima. Ficou bem irritado e nunca esqueceu. Usou o fato, anos depois - já separados - para ironizar um comportamento dela.

"Sociopatas se sentem mais confortáveis quando ficam junto de pessoas que estão de alguma maneira abaixo deles - em qualquer escala que eles julgam importante - para a afirmação de sua própria personalidade narcisista. Só assim se sentem livres para brilhar sem nenhum concorrente por perto."

 - Perfeito! Isso explica o atual relacionamento de Plínio e o círculo de amizade que passou a frequentar. A menina vesga, muito magra, inexpressiva e seus amigos estranhos, totalmente fora do contexto.

Lídia percebeu que dormiu com o inimigo por seis longos anos. Concluiu que teve sorte. Podia ter sido pior.  Ficou feliz por ter lido o texto até o final. Foi esclarecedor.

Entendeu finalmente, que era de  Plínio a culpa. Era dele a incapacidade de amar. Nada pessoal, nada contra ela, nada que a desabonasse. Ele era o doente. E a doença dele a curou!

 

 

 

 

A dor e a delícia

Chris Carolo – Uma mulher que aprendeu, a duras penas, que para ser feliz é preciso estar presente. Seja na dor, seja na delícia.

“A Dor e a Delícia” retrata algumas memórias da autora e conta histórias de ficção, ou não, através de contos e crônicas. Memórias de uma infância feliz, de uma adolescência nem tanto e de uma vida adulta pautada na verdade e na fidelidade daquilo que se é.

Histórias divertidas, ouvidas de amigos. Contos e crônicas que retratam romances, dramas e até mesmo algumas comédias.

“A ideia é que a leitura seja leve, acessível e toque de alguma forma quem se dispuser a compartilhar desses momentos comigo.”

Imagem DANIEL BASSO.

 

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.


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