A dor e a delícia
20/03/2015 11h16 - Atualizado em 20/03/2015 11h16

PARTIDA

PARTIDA

Havia uma tristeza no ar, uma sensação de que algo estava por acontecer. O céu cinza, emoldurado pela garoa que caia há alguns dias, deixava tudo ainda mais deprimente. Dentro do carro, a mãe dirigindo, Cinthya contou o sonho que teve.

- Sonhei com D. Fátima, mãe. Acordei com uma impressão ruim. Eu sei que ela está sofrendo muito com a doença, mas fico pensando no Lucas. Ele vai ficar desesperado se algo acontecer.

Lurdes, nada falou. Apenas olhou para a filha pelo retrovisor com certa apreensão. Conhecia aqueles sonhos. Sempre significavam alguma coisa.

O telefone tocou assim que entraram em casa. Seu coração entrou em descompasso. Sabia o que diriam do outro lado da linha.

- Dona Fátima morreu essa noite. Estava serena, de mãos dadas com a cunhada. Sofrimento acabou – disse Luzia, a amiga encarregada de dar a má notícia.

- E o do Lucas vai aumentar, pensou Cinthya, enquanto tentava conter as lágrimas.

Impossível não lembrar da noite em que ele contou que a mãe estava doente. Havia um misto de desespero e esperança na voz daquele menino que ela tanto amava. Sentados no pequeno degrau que separava os camarotes do salão principal, Lucas disse qualquer coisa que ela não entendeu. As marchinhas de carnaval, tocadas a todo vapor pela banda, encobriram a voz dele. Os corpos se aproximaram instintivamente, e ele falou: - Minha mãe está morrendo e eu não posso fazer nada. Ela se aproximou ainda mais, pôs as mãos em seu rosto e afirmou com sorriso que ia ficar tudo bem. Ele desabou, contou com mágoa da conversa que teve com o pai, pedindo para trancar a faculdade, ou quem sabe transferir para uma cidade mais próxima - queria passar mais tempo com a mãe - e da negativa dele.  Falou de solidão, impotência, dependência e da falta de perspectiva com o curso que tinha escolhido fazer. Contou sobre o tratamento, as possibilidades de melhora, as aulas da universidade, as noites em Porto Alegre, onde morava há pouco mais de um ano. Depois do desabafo, abraçou Cinthya dizendo o quanto tinha sido importante aquela conversa, mesmo caótica, no meio de um baile de carnaval. Eles sorriram um para o outro e ele a beijou.

Diante da notícia, ela sabia que precisa estar ao lado dele. Pegou o primeiro ônibus que conseguiu rumo à Bauru. De lá, pegaria outro com destino ao pequeno distrito onde tudo estava acontecendo.

Chegou tarde da noite, tomou um banho na casa da avó e seguiu a pé, rumo à casa de Lucas, onde o velório estava acontecendo. Muita gente na calçada, sala lotada e D. Fátima ali no meio da sala com as filhas em volta do caixão.  Cena triste! Cinthya abraçou Ana Maria e ambas choraram dolorosamente.

- O Lucas está lá no fundo, vai lá. Ele vai gostar de te ver.

Encontrou um menino de olhos vermelhos, cabelo em desalinho, num desconsolo de cortar a alma em fatias. Estava rodeado de amigos e absolutamente só. Quando percebeu sua presença até tentou sorrir, mas as lágrimas vieram com ainda mais força. O abraço foi longo e apertado.

- Pelo menos você veio! Foi a única coisa que ele conseguiu dizer.

Passaram a noite lado a lado, sem trocar palavra. Vez ou outra, ele deitava a cabeça em seu ombro e chorava. Ela tentou dissuadi-lo a deitar um pouco, mas Lucas só se movimenta, vez ou outra, para se postar ao lado do corpo da mãe.

Na manhã seguinte, veio o padre para abençoar aquela que era tão querida por todos na cidade. A mulher sorridente, que morreu depois de lutar contra um câncer cruel. A mãe dedicada, que mesmo sofrendo, continuava dando esperança para aqueles filhos que eram a razão da sua vida.

O cortejo saiu e todos seguiram a pé até o pequeno cemitério. Lucas caminhava bem próximo ao carro que levava sua mãe. Não quis companhia. Cinthya acompanhava tudo com certa distância. Sabia, intimamente, que se lembraria desse dia como o dia em que tudo mudou.

Quando tudo acabou, Lucas tinha o olhar vazio emoldurado por uma palidez que preocupava. Quando tudo acabou, Cinthya teve dificuldade de reconhecer o menino que morava dentro dele.

Na plataforma da rodoviária, à espera do ônibus que a levaria de volta pra casa, Cinthya pressentiu que além da partida de D. Fática, ia precisar aprender a lidar com a de Lucas. Ele também foi para algum lugar de onde dificilmente voltará.

 

 

 

 

A dor e a delícia

Chris Carolo – Uma mulher que aprendeu, a duras penas, que para ser feliz é preciso estar presente. Seja na dor, seja na delícia.

“A Dor e a Delícia” retrata algumas memórias da autora e conta histórias de ficção, ou não, através de contos e crônicas. Memórias de uma infância feliz, de uma adolescência nem tanto e de uma vida adulta pautada na verdade e na fidelidade daquilo que se é.

Histórias divertidas, ouvidas de amigos. Contos e crônicas que retratam romances, dramas e até mesmo algumas comédias.

“A ideia é que a leitura seja leve, acessível e toque de alguma forma quem se dispuser a compartilhar desses momentos comigo.”

Imagem DANIEL BASSO.

 

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.


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