A dor e a delícia
04/02/2015 09h25 - Atualizado em 04/02/2015 09h27

VISÃO DOS TEMPOS!

VISÃO DOS TEMPOS!

- Achei que nada tinha mudado, ele escreveu.

- As coisas mudam o tempo todo, respondeu ela.

O diálogo era puramente profissional, mas considerando o encontro inesperado na noite anterior, poderia muito bem ser considerada uma frase de duplo sentido.

Tudo tinha mudado, pelo menos pra ela. Estavam ambos em novas companhias; ela visivelmente feliz e integrada à família que escolheu. Estava consciente de quem era, estava segura e dona de si. Tinha ao seu lado um homem que a respeitava, admirava e amava. Alguém com quem sempre sonhou. Ele, com a moça magra e ligeiramente estrábica sentada ao seu lado, parecia sozinho e distante, o que ratificava a continuidade do seu comportamento egoísta.

A situação fazia o maior sentido e era coerente com o estilo de cada um. Ela sempre viveu rodeada de amigos queridos, sempre deu valor à família, sempre se divertiu muito com os inúmeros primos que tem. Ele sempre refutou as origens - apesar de fazer disso uma bandeira em situações oportunas – nunca preservou os amigos e tão pouco se relacionou com os primos, exceto quando ela o incentivou e eles estabeleceram vínculos com alguns. Depois da separação, é provável que ele nunca mais os tenha visto.

A vida é realmente feita de escolhas, ela pensou. Mesmo que essa escolha seja a do outro, como foi no seu caso. Tinha consciência de que não teria optado por uma separação, anos atrás, quando ele chegou com a notícia de que queria outra vida. Teria tentado mais um pouco, de outro jeito. Tudo para ficar com ele. Não tinha, na época, a noção do quanto a decisão taxativa dele, a princípio doída como a morte, seria benéfica em curto espaço de tempo.

Ele dizia saber disso. Devia saber também, que sua vida continuaria igual, mesmo sabendo que dificilmente teria paz na convivência com outro alguém. Visionário! - ela pensou enquanto observava a falta de intimidade, de afinidade e paixão daquele  par que ele agora formava com a menina estranha.

Incrível lembrar que um dia foram casal.  Não havia mais nenhuma conexão entre eles. Ela sentia-se plena, feliz com as oportunidades que a vida lhe ofereceu. Ele parecia viver a mesmice das escolhas erradas que colecionou ao longo dos tempos.

Natural que ele tenha pensado que nada mudou. Tirando a moça esquisita a tiracolo, tudo estava absolutamente igual. A roupa, a postura, o repertório, o mau humor.

Ela, ao contrário, graças ao universo e suas conspirações,  estava radiante e consciente de que as coisas mudam sim, o tempo todo!

 

 

 

A dor e a delícia

Chris Carolo – Uma mulher que aprendeu, a duras penas, que para ser feliz é preciso estar presente. Seja na dor, seja na delícia.

“A Dor e a Delícia” retrata algumas memórias da autora e conta histórias de ficção, ou não, através de contos e crônicas. Memórias de uma infância feliz, de uma adolescência nem tanto e de uma vida adulta pautada na verdade e na fidelidade daquilo que se é.

Histórias divertidas, ouvidas de amigos. Contos e crônicas que retratam romances, dramas e até mesmo algumas comédias.

“A ideia é que a leitura seja leve, acessível e toque de alguma forma quem se dispuser a compartilhar desses momentos comigo.”

Imagem DANIEL BASSO.

 

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.


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