Gêmeos do Cinema
20/02/2015 19h09 - Atualizado em 20/02/2015 19h58

50 TONS DE CINZA

50 TONS DE CINZA

Uma vez o cineasta François Truffaut disse que adaptava livros para cinema apenas quando secavam as ideias de sua mente, após a realização de um roteiro original. Você realiza uma adaptação literária para o cinema por vários motivos artísticos e culturais, mas também para o poço, que existe em nossas mentes, voltar a dar água para um próximo roteiro original. Claro, estamos falando de Truffaut! Para deixar claro...

Bem, não achamos que os cineastas de hoje em dia adaptam livros pelo mesmo motivo de Truffaut. Nos últimos 15 anos, adaptações de livros mundialmente famosos já renderem horrores para Hollywood, como também belos fracassos. Adaptar para o cinema obras literárias, de vários volumes, provou com a explosão da trilogia O SENHOR DOS ANEIS ser a onda do momento. Mas claro, se o primeiro faz sucesso, normalmente farão os demais, porque se o primeiro sair-se bem, ganhara fás que com certeza irão assistir os demais.

Tornou-se o novo caça niqueis para os poderosos dos grandes estúdios. E não demoraria muito uma adaptação para o cinema do livro 50 TONS DE CINZA. O livro já é famoso, tem fãs e milhares de curiosos, ou seja, o projeto perfeito.

50 TONS DE CINZA faz bonito e explode na Bilheteria USA com uma estreia de US$ 81,7 milhões, se tornando um dos filmes para maiores de 18 anos mais rentáveis da história do cinema. O longa, que acompanha o milionário sadomasoquista Christian Grey (Jamie Dornan) e suas técnicas de sedução que conquistam Anastasia Steele (Dakota Johnson), uma inocente estudante de literatura, tem como base o livro homônimo de E.L. James (uma inglesa nascida em 1963, casada e com dois filhos), e já dobrou seu orçamento de US$ 40 milhões.

Quem leu o livro encontrará detalhes sexuais, por exemplo, não presentes no filme. Achamos um absurdo que não apareça no filme o casal sem roupa. Existe um pedaço “disso” e “daquilo”, nem a personagem feminina é vista de frente. Na verdade o norte americano sempre teve certo preconceito de encarar o sexo de frente e, com o lançamento deste filme, percebemos que as coisas não mudaram.

Vamos ao elenco. A moça: (Dakota), filha de Melanie Griffith e Don Johnson, neta de Tippi Hedrem de OS PÁSSAROS de HITCHCOCK, é suportável como atriz, tem certa sinceridade e chega a agradar, mas esta longe, muito longe do que imaginávamos para esta personagem. O galã que inventaram: não tem muita convicção ou talento. Carisma? Não vamos discutir. É mais um rosto bonito que Hollywood vai tentar construir como um ídolo, mas que já precisa se preocupar com a carreira quando passar a euforia da trilogia em questão. Pode acontecer um milagre. Ele pode aproveitar a fama e o dinheiro que está ganhando para melhorar seu desempenho e seu físico, e ganhar realmente respeito no mundo artístico. Isso não é o que geralmente acontece. Ele também é longe, mais do que a menina, do que se espera a este personagem. Teria de ser um galã com mais jeito de homem, mais robusto, mais forte e mais misterioso, tudo o que Dornam não é. Imaginávamos um ator como... Você acredita que não temos uma opção. Onde estarão os galãs?

Encontramos: para nós, o casal ideal para este filme combinando beleza, talento, carisma e personalidade seriam: Ryan Gosling e Emma Watson. 

E os coadjuvantes: sem comentários. Marcia Gay Harden passa despercebida (uma premiada com o Oscar – ganhou como atriz coadjuvante por POLLOCK em 2000, sem merecer). A interessante Jennifer Ehle não tem praticamente o que fazer - lembrando que aparecendo apenas umas quatro vezes, ela conseguiu arrancar lágrimas de todos no sublime UM CANTO DE ESPERANCA em 1997. 

Entretanto, o filme não é ruim. É um bom filme. Mas ao fim da projeção deu aquela pequena fagulha de inveja de não ter sido jovem nos anos 70 ou 80, onde tínhamos O ULTIMO TANGO EM PARIS com Marlon Brando e Maria Schneider ou 9 1/2 SEMANAS DE AMOR com Kim Basinger e Mickey Rourke. Rourke sim! Ele era o verdadeiro Grey!!!!! Ficamos felizes por ter vivido a essência da explosão do furacão Sharon Stone em 1992 com INSTINTO SELVAGEM e acompanhar Madonna e seu trio de sexo (livro de sexo, filme de sexo e cd de sexo), também em 1992. Sharon obteve sucesso nesta explosão e Madonna um grande fracasso, mas todos foram exageradamente comentados, causando frisson e polêmica, que é muito importante para o cinema, que o fenômeno 50 TONS DE CINZA tentou fazer e quase conseguiu. Observação: todas estas notícias que envolvem o ano de 1992 não são baseadas em sucessos literários.

Já se passaram 43 anos de O ULTIMO TANGO EM PARIS e até hoje a cena da manteiga é comentada, polêmica e discutida. As marcas de ‘doriana’ deveriam agradecer Marlon Brando (risos). Já se passaram 29 anos do lançamento de 9 1/2 SEMANAS DE AMOR e a cena do beco, da geladeira, dos pedaços de gelo e a sequencia quase perto do fim com aquele reality de sexo ao vivo são polêmicos, comentados e discutidos. Já se passaram 23 anos de INSTINTO SELVAGEM e ninguém mais cruzou as pernas como Sharon Stone e todas as cantoras que querem se exibir de forma erótica, nunca vão acompanhar com vitória o ritmo de Madonna naquele ano. Portanto, eis a questão: o que o filme 50 TONS DE CINZA deixará marcado? Será que vamos ter que esperar o fim da trilogia para isso?

O filme é legal, nos reforçamos. A fotografia é muito boa e a trilha não faz feio. As cenas no quarto vermelho são esperadas e até causa um nervosismo, mesmo que o restante se saia um pouco lento e ingênuo. Mas o cinema estava precisando de sexo no lugar dos efeitos visuais. Bem... Temos o representante.

O livro, acusado de machista, foi transportado diferente ao cinema. A visão do filme é a visão de Grey, menos nas cenas de sexo. Neste momento, é a visão da mulher que predomina. Ponto para o cineasta. Equilibrou a polêmica causada pelo livro. Afinal, cinema é cinema, não é livro. Comparações são críticas equivocadas, uma vez que estamos falando de veículos completamente diferentes.  

O lançamento do filme já deu um acréscimo de 28% nos sex shops. Materiais como algemas e chicotes estão se tornando rotineiros. Isso é importante para o cinema, basicamente é um movimento.

Os críticos norte americanos têm saído das sessões dando inúmeras gargalhadas e em Berlim ele foi praticamente um filme de humor. Será que o sexo deixou de ser tabu em alguns lugares?

 

Gêmeos do Cinema

'Para mim, o cinema não é uma fatia da vida, mas um pedaço de bolo.' Alfred Hitchcock 

 André de Castro e Marcos de Castro - Irmãos gêmeos graduados em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, pesquisadores em semiótica, cinema e produtores audiovisuais registrados pela ANCINE. Profundo conhecimento em análise fílmica. Articulistas, palestrantes (curadores e comentaristas de cinema) pela São Paulo Film Commission e pela rádio CBN. Profundo conhecimento em história de cinema e todos os gêneros (comerciais, alternativos, independentes, estrangeiros, cults e clássicos). Diretores operacionais e administrativos dos Estúdios Kaiser de Cinema, apadrinhados pelo crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

São Paulo Film Commission, Estúdios Kaiser de Cinema, Núcleo de Cinema de Ribeirão Preto Tel: (16) 3625.3600 * Cel: (16) 9175.0375 CLARO (16) 9994.1957 VIVO * (16) 8832.0089 OI Skype: andrecastro1980.

E-mail: contato@saopaulofilmcommission.org.br | www.saopaulofilmcommission.org.br

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.

Voltar para o topo
COMPARTILHE ESTE TEXTO Facebook Twitter