06/06/2015 06h14 - Atualizado em 06/06/2015 07h01

AH! BRUTA FLOR DO QUERER...

AH! BRUTA FLOR DO QUERER...

Trair está na moda. Tornar-se popular por ter sido traído também. Tudo bem. Esse tema movimenta há anos o mercado fonográfico. Cantores sertanejos, pagodeiros, dramaturgos e até cartórios civis, sobrevivem com as seqüelas dessa tendência. 

Não deixa de ser engraçado. Melhor ainda quando se consegue que a vítima do traidor permaneça míope por tempo indeterminado. Que seja o último a saber e, que lhe seja atribuído a “amorosa” alcunha de “corno”. 

Acontece que atrás de um traidor, há sempre uma “boiada” de sedentos pelos efeitos da traição alheia. Parece mentira, mas há realmente quem atribua mais responsabilidade ao traído do que ao traidor. 

Numa franca inversão de valores, o traidor é, geralmente, o esperto, o safo, o articulado e sua vítima, aquele que por sua ingenuidade mereceu tal comportamento. Vamos combinar? Ser traído não é engraçado. 

Há premissas básicas pra que alguém seja vítima de uma traição, mas a condição primeira é que tenha existido anteriormente um depósito de confiança e uma entrega desprovida da malícia necessária. 

Porque então, julgamos com tanta dureza esses pobres traídos? Aliás, vale dizer, só o fazemos se o traído for do sexo masculino e desse ponto em diante, até o chamamento é modificado. 

“Trair e coçar: é só começar”. Não é bem assim. Em qualquer um dos dois, mais fácil que dar o pontapé inicial é encontrar argumentos que justifiquem o ato. O traidor colhe as suas razões diretamente da singular e permissiva visão de si mesmo. 

Não é à toa que o traidor é conhecido por suas excessivas tentativas de explicar o inexplicável. Nesses momentos, o melhor a fazer é não tentar entender a lógica do traidor, ou ficará mais irritado que conformado. 

Trair é conceitual. E, como tal, pode ser visto de diferentes ângulos. Além disso, é também um dado relevante no processo de desenvolvimento da psique humana. 

Trair ou ser traído evoca a urgente necessidade de revisão e aprimoramento dos valores pessoais, e nos leva a cuidar com mais apreço de conteúdos imaturos de nossa dimensão psicológica. 

Não há quem possa dizer que nunca foi traído. Quem nunca tenha provado o gosto amargo de uma confiança quebrada, de uma inocência corrompida sem seu consentimento ou preparação. 

Trair é muito mais que deixar-se levar pelo instinto leviano de satisfazer a si mesmo em detrimento do outro. Assim como, ser traído é muito mais que ser ingênuo. Parece até que precisamos da traição, para que findemos o processo de renúncia aos imediatismos que iniciamos na infância. 

A mamadeira vazia, os pais que momentaneamente se afastam, a repreensão não dada, o amor não ofertado, juntos, mimando-nos em nossas exigências primárias. 

Até que um dia, isso não mais acontece e aprendemos finalmente que não havia mágica na distância entre chorar e ser atendido. 

Não existe traição sem sua antítese, a confiança. E, uma anulará a outra, caso não sejam concebidas pelo mesmo sujeito. Só vê cornos quem, por algum motivo, já foi muito ferido por iguais adornos. 

Embora não ofereça conforto, a traição é extraída necessariamente de onde, antes, havia confiança e é o que demonstra, pra dizer o mínimo, a superioridade de quem a sofre. 

Muitos se orgulham de ter tido a sagacidade necessária para trair sem serem descobertos. Ser “corno” virou piada. Mas, não há riso e nem melodia em se descobrir nesse paradoxo do amor. 

Entretanto, não há nada que seja mais útil para o desenvolvimento emocional que ser atingido por qualquer espécie de traição. Daí que, ao contrário do que se pensa, o valor não está em não ser traído e, sim em fazer disso um aprendizado. 

Abandone sentimentos de vingança. Certamente, ao fazê-lo, terá a tensão acumulada, finalmente liberada, mas os perigos de essa solução tornar-se uma obsessão e reduzir seu bom senso são imensos. 

Tente não culpar-se por ter se cegado diante do que, só agora, parece óbvio. Evite generalizações. Nem todas as amigas são falsas e articuladoras. Nem todos os homens são volúveis e mulherengos.

Nem, tampouco, você é tão burra quanto querem que pareça. Não traia a si mesma tentando copiar as atitudes do traidor, na tentativa de dar-lhe a mesma dor. Não transfira desconfianças aos que virão depois. 

Reflita, elabore e comece a crescer usando o traidor como alavanca. Reconheça que o que o tornou passível de traição é a mesma medida de sua capacidade em confiar. Essa superioridade é o que nos torna piada para quem não consegue fazer o mesmo. 

Ficar corroído pelo ódio, pelo agravo sofrido, ou pela culpa é o caminho que nos trava os joelhos e atrofia nossa capacidade de amar novamente. 

O perdoar a si mesmo traz a libertação dos grilhões do passado e seca os resquícios da saliva contaminada que a traição e o traidor deixaram em nossas almas. 

Devemos aprender com nossas feridas, do contrário as repetiremos ou nos identificaremos com elas. O grande aprendizado da experiência de ser traído é que nos impele a abandonar a inocência, evitando empacarmos em experiências inúteis. 

Não vejo graça na piada de ser traído, e menos ainda no ato de trair. Ainda que por razões sexistas, haja um enorme abismo a ser transposto antes de superarmos os traumas de sendo mulher, ser vítima e, sendo homem, ser corno. 

A meu ver, isso é coisa de quem vê chifre onde não tem. Talvez pela dificuldade anatômica de olhar para a própria testa. 

Mara Cabral

A psicologia é a ciência que estuda os processos mentais que influenciam o comportamento. Centrada no indivíduo e sedimentada na exclusividade de seus recursos existenciais, não pode ser confundida com crenças, ideias ou convicções transmitidas culturalmente. A psicologia descreve, explica, prevê e controla o desenvolvimento do comportamento. Existir é fácil. O desafio está em viver!

Mara Cabral: Psicóloga clínica-hospitalar, jornalista, Pós-graduada em História, Cultura e Sociedade, Idealizadora e Apresentadora do Programa “Sexo, Arroz e Internet” (Canal 20 da Net RP), mãe, amante dos animais e colunista do Portal Vai e Vem da Vida.

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.

Voltar para o topo
COMPARTILHE ESTE TEXTO Facebook Twitter