02/08/2015 08h14 - Atualizado em 02/08/2015 08h40

LOUCO, NÉ?

LOUCO, NÉ?

Primeiro Dia de Estágio - Faculdade de Psicologia

Lá pelos idos anos 80 ....

...."Não sou gay, deficiente, infeliz ou doente mental. Como vou entender o que me dirão essas pessoas? O que direi amanhã á aquelas mulheres do Hospital do Câncer? Já sei! Digo que não sei.

Digo que estou aqui de batom e unhas feitas, porque não tive como elas, que entender a vida além dessas futilidades.

Revelo meu mais profundo segredo: de que estou aqui pra aprender. Não! Elas não podem jamais suspeitar que não estou preparada para ajudá-las....

Não digo nada. Pronto! Apenas ouço.

Mas se não falarem comigo? E se me acharem jovem demais? Não sei como dizer que Não SEI como elas se sentem.... "

Muito tempo passou desde aquele dia.

Mas ali, eu sabia, eu começava a entender. Ali, era o começo de um desígnio, da maldição e da benção de quem se atreve a enveredar aonde ninguém mais quer ir.

Não sei dizer o que me fez ficar, nem mesmo o que me fez entrar por aquela grade cinza que fazia fronteira com meu mundo colorido. 

Lá dentro conheci Napoleão. Descobri que Getúlio Vargas havia sido assassinado e que meus professores sabiam tanto quanto eu.

Aprendi sobre a solidão, o medo, o poder, negligência e saudade. Mas, sobretudo, aprendi que aprender não bastaria. 

Era preciso compreender além da mente. Olhar através... e tocar! Tudo isso, antes de pensar.

Era preciso querer estar ali mais do que em qualquer outro lugar. Entendi rapidamente que nunca mais os deixaria lá. Que ao partir, os levaria comigo. Seriam meu castigo por ignorá-los por tanto tempo. 

Quando iniciei esse texto, pensava em escrever sobre empatia. Queria dar as respostas que aprendi para quem ainda não compreende a palavra.

Mas, empatia não tem definição. Empatia é um estado de espírito, um espectro sem dimensões definidas. 

Tanto tempo depois e ainda não tenho as respostas pro texto que escrevi quando debutei na exploração da alma humana.

Agreguei, ao longo desses anos, uma legião de amigos gays, deficientes, infelizes e doentes mentais. E na convivência com eles, entendi que não precisava ser como eles e nem pertencer ao mesmo grupo de identificação.

Pra dizer a verdade, hoje, nem mesmo sei diferenciá-los entre si. 

Fica mais fácil ver as deficiências, a diversidade sexual, a infelicidade e o desequilíbrio mental onde elas não estão tão óbvias.

Meus amigos “normais” e eu, nos alternamos nessas categorias e quase ninguém percebe. E quando percebem nos justificam. 

O tempo causou danos irreversíveis em minha passividade. Há muito vinha percebendo certo incomodo. Como se alguma coisa em mim estivesse em desalinho com minha auto-avaliação. 

Concluí que ultimamente vinha perdendo tempo demais colorindo os portões do manicômio. Plantando trepadeiras com flores brancas em suas grades de segurança.

Sentindo-me protegida do lado de fora da realidade que resolvi enfrentar anos atrás. 

Empatia enfim é isso. Empatia é estar dentro, mesmo que fora.

É parecer estar fora, mesmo que se esteja dentro.

É chorar de rir, relaxar no cansaço, adoecer com saúde e viver o “morrer” como se isso fosse perfeitamente possível! 

Empatia é enlouquecer com a sanidade alheia!

 

 

Mara Cabral

A psicologia é a ciência que estuda os processos mentais que influenciam o comportamento. Centrada no indivíduo e sedimentada na exclusividade de seus recursos existenciais, não pode ser confundida com crenças, ideias ou convicções transmitidas culturalmente. A psicologia descreve, explica, prevê e controla o desenvolvimento do comportamento. Existir é fácil. O desafio está em viver!

Mara Cabral: Psicóloga clínica-hospitalar, jornalista, Pós-graduada em História, Cultura e Sociedade, Idealizadora e Apresentadora do Programa “Sexo, Arroz e Internet” (Canal 20 da Net RP), mãe, amante dos animais e colunista do Portal Vai e Vem da Vida.

* As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Portal de Notícias www.vaievemdavida.com.br.

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