12/05/2016 09h43 - Atualizado em 12/05/2016 09h43

Compulsão alimentar nas mulheres é verdade ou mito? Médico explica

Doutor Guilherme Renke fala dos sinais e tratamentos para a dependência alimentar, que é muito comum, principalmente entre as mulheres

Compulsão alimentar nas mulheres é verdade ou mito? Médico explica
Imagem Reprodução/Divulgação
Créditos: Matéria G1/EuAtleta

Diversos estudos tentam decifrar como ocorre o fenômeno da compulsão alimentar. Ela é muito 
comum, principalmente, entre as mulheres que afirmam ter uma “dependência alimentar” ou 
serem “viciadas” em certos alimentos. Atualmente, há muita controvérsia na comunidade científica sobre quais são os mecanismos relacionados com a dependência alimentar e como ela poderia contribuir para o sobrepeso e para a obesidade. Em contraste, o vício em comida é amplamente discutido na mídia e o apoio público para sua existência parece ser muito forte. De fato, o estudo de Lee e colaboradores de 2013 mostra que mais de 85% das australianas e americanas acreditam que certos alimentos têm potencial viciante, e 72% acreditam que o vício em comida é responsável por alguns casos de obesidade. Mais impressionante é o estudo de Meadwos & Higgs, de 2013, que mostra que 52% das mulheres inglesas classificam-se como viciadas em alimentos. E como será que é no Brasil?

A compulsão alimentar é um problema de saúde pública e, pior, é subdiagnosticada pelos 
médicos. O estudo Kessler e colaboradores publicado em 2013 pelo Instituto Nacional de Saúde 
dos EUA (NIH) mostra que a compulsão alimentar representa um problema de saúde pública, 
pelo menos, igual a bulimia nervosa. Eles ainda ressaltam a importância clínica de questionar os pacientes sobre problemas alimentares, mesmo quando esses não estão incluídos entre as 
queixas apresentadas ao médico em consultas.  

Com moderação pode? Veja quantas calorias possui cada bebida alcoólica

Segundo o médico Higor Caldato, psiquiatra com formação em transtornos alimentares pela 
UFRJ, um episódio de compulsão alimentar acontece quando uma pessoa ingere uma quantidade de comida muito maior do que a maioria das pessoas comeriam em um mesmo intervalo de tempo, e acontece com uma sensação de descontrole, sem conseguir evitar comer ou para de comer. Além disso, segundo o psiquiatra a pessoa pode comer muito mais rapidamente que o habitual, sentir-se desconfortavelmente cheia, ingerir alimentos sem sentir de fato fome. 

O psiquiatra ainda esclarece que: “frequentemente estes episódios são seguidos por sofrimento, 
depressão ou culpa. As pessoas que apresentam transtorno de compulsão alimentar geralmente 
sentem vergonha de seus problemas alimentares e tentam ocultar os sintomas”. Assim, a doença acaba ocorrendo em segredo ou o mais discretamente possível, atrasando muitas vezes, a busca pelo adequado tratamento. Sem o devido tratamento, os pacientes continuam a sofrer calados.

COMO A CIÊNCIA EXPLICA A COMPULSÃO ALIMENTAR?

A compulsão alimentar é uma condição multifatorial estando envolvida com fatores 
socioculturais, psicológicos e, até, familiares. No entanto, atualmente existem explicações 
biológicas e estudos recentes mostram que, para algumas pessoas, os mesmos centros de 
recompensa e prazer do cérebro que são acionados por drogas que causam dependência, como 
cocaína e heroína por exemplo, são também ativadas por alimentos, especialmente aqueles 
altamente palatáveis como o açúcar e o sal. 

Como as drogas que causam dependência, os alimentos altamente palatáveis parecem 
desencadear a liberação de substâncias químicas, em especial a dopamina, no cérebro. Uma vez que as pessoas experimentam o prazer de comer certos alimentos ocorre o aumento da 
transmissão de dopamina e serotonina na via de recompensa no cérebro, assim elas rapidamente sentem a necessidade de comer novamente para sentir o mesmo prazer.

É o que evidencia o estudo de Wang e colaboradores onde a disponibilidade do receptor de 
dopamina (D2) está diminuída em indivíduos obesos. A dopamina modula circuitos de motivação e recompensa e, portanto, a deficiência de dopamina em indivíduos obesos pode perpetuar a 
compulsão alimentar como um meio para compensar a diminuição da ativação desses circuitos. 

Alergia, doença ou sensibilidade: entenda as diversas reações ao glúten

QUAIS O SINAIS DA COMPULSÃO ALIMENTAR?

Veja se algumas dessas perguntas se aplicam a você? 

- Você come mais do que o previsto quando começa a comer certos alimentos? 
- Você come certos alimentos mesmo quando não está mais com fome?
- Você come algum alimento em excesso a ponto de sentir-se mal? 
- Você se preocupa em não comer certos tipos de alimentos? 
- Quando certos alimentos não estão disponíveis você sai de casa para obtê-los?
- Você evita situações profissionais ou sociais onde certos alimentos estão disponíveis por 
causa do medo de comer demais?
- Você tem problemas no seu trabalho ou escola por causa de comida?
- Comer alguns alimentos provocam problemas como depressão, ansiedade ou culpa?
- Você precisa comer mais e mais alimentos para reduzir as emoções negativas ou aumentar o prazer?
- Comer a mesma quantidade de alimentos não reduz as emoções negativas ou aumenta o 
prazer da maneira que costumava?

COMO TRATAR A COMPULSÃO ALIMENTAR?

O acompanhamento médico é indispensável para o diagnóstico e o tratamento da compulsão 
alimentar. Como normalmente esses indivíduos estão com sobrepeso ou são obesos o tratamento multidisciplinar é fundamental. Uma equipe formada por um psiquiatra, psicólogo, endocrinologista e o nutricionista pode trazer um resultado muito mais favorável para o paciente a longo prazo. 

O tratamento passa por medidas farmacológicas específicas com o objetivo de reduzir os 
episódios de compulsão alimentar e o peso corporal (quando associado a sobrepeso ou 
obesidade). E medidas não farmacológicas como o acompanhamento nutricional para a 
melhora do comportamento alimentar inadequado e de psicoterapias, principalmente o cognitivo comportamental, que tem mostrado resultados significativos no tratamento da compulsão alimentar. Por isso, tenha equilíbrio nas suas escolhas e cuide-se sempre, nunca negligencie os sinais do seu organismo.

Referências:
1 – Wang G. et al. Brain dopamine and obesity. The Lancet Vol. 357, No. 9253, p354–357, 3 February 2001.
2 - Hardman CA. "Food addiction is real". The effects of exposure to this message on self-diagnosed food addiction and eating behaviour. Appetite. 2015 Aug;91:179-84.
3 - Lee, N. M., Lucke, J., Hall, W. D., Meurk, C., Boyle, F. M., & Carter, A. Public views on food addiction and obesity. Implications for policy and treatment. PLoS ONE, 8(9), e74836. 2013
4 - Meadows, A., & Higgs, S. I think, therefore I am? Characteristics of a non-clinical population of self-perceived food addicts. Appetite, 71, 482. 2013
5 - Hoyt, C. L., Burnette, J. L., & Auster-Gussman, L. (2014). “Obesity is a disease”. Examining the self-regulatory impact of this public-health message. Psychological Science, 25(4), 997–1002.
6 – Kessler C. et al. The prevalence and correlates of binge eating disorder in the WHO World Mental Health Surveys. Biol Psychiatry. 2013 May 1; 73(9): 904–914.

*As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Globoesporte.com / EuAtleta.com

euatleta especialistas Guilherme Renke ESTE (Foto: EU ATLETA)

 

 

GUILHERME RENKE
Médico pela Universidade Estácio de Sá, com pós-graduação em Cardiologia pelo Instituto Nacional de Cardiologia INCL RJ e Endocrinologia pela IPEMED. Membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, Membro do American College of Sports Medicine, Membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Membro do Departamento de Ergometria e Reabilitação da SBC.

 

Voltar para o topo
COMPARTILHE ESTA NOTÍCIA Facebook Twitter