10/05/2016 09h06 - Atualizado em 10/05/2016 09h08

Da depressão ao "baile de favela": a ressurreição de Anselmo no Fortaleza

Atacante relembra momento difícil da vida, quando descobriu que conta bancária estava "limpa", e fala sobre como filhos o ajudaram a retomar o gosto pelo futebol

Da depressão ao "baile de favela": a ressurreição de Anselmo no Fortaleza
Anselmo e a cabeça do mascote Juba: identificação com a torcida e artilharia do Fortaleza (Foto: JL Rosa/Agência Diário
Créditos: Matéria Globoesporte.com

As lágrimas ao fim do jogo final do Campeonato Cearense mostravam que, para Anselmo, o título do Fortaleza era bem mais do que outra  conquista para a prateleira de sua casa. Afinal, o atacante já havia participado das campanhas vitoriosas do Ceará, no estadual de 2013, e do Tombense, na Série D do Campeonato Brasileiro de 2014.

Mas a conquista do domingo (8) tinha um elemento em especial: foi a primeira desde que Anselmo voltou a gostar de jogar futebol. Depois que viu sua conta no banco "limpa" e não renovou com o Shanghai Shenxin, time no qual jogava na China, começou a atuar por times Brasil afora apenas para manter a família. Foi ali que ele havia perdido a vontade de ser jogador profissional, em 2013. Quando voltou de férias ao Brasil, estava certo que o contrato tinha sido renovado e que jogaria a temporada seguinte também no futebol chinês. Mas quando os dirigentes deixaram de responder às suas mensagens, foi hora de tentar saber o que acontecia.

- Eu estava começando a minha independência financeira já pensando no futuro dos filhos. Na época, eu estava ajudando os meus pais, comprando casa, e você recebe uma ligação da sua gerente dizendo que não entra dinheiro na sua conta há 10 meses. Você vai averiguar e vê que, além de não ter nada, ainda estava devendo. Aquilo foi o maior baque que eu tive na vida. Eu só sei jogar futebol. Mas como você joga sem ter motivação? Eu me vi sem chão. Demorei quatro, cinco meses para contar para minha esposa. Ela via que tinha um problema, mas eu não conseguia dizer nada - relembrou Anselmo, com voz baixa na última segunda-feira (9), o episódio em que a ponte entre empresário e clube causou um desvio de seus salários por quase um ano, deixando sua situação financeira ruim no episódio.

Anselmo, atacante do Fortaleza (Foto: Thaís Jorge)Anselmo se emociona ao lembrar de momento difícil na sua vida de jogador (Foto: Thaís Jorge)

E o fato de jogar apenas por obrigação em seis clubes, até chegar ao Fortaleza, teve reflexo nos gols do artilheiro. Se fizermos as contas de quantas vezes Anselmo balançou as redes desse momento da sua vida até a sua chegada ao Tricolor do Pici, o índice foi abaixo do que ele costuma anotar. Foram 30 gols em três anos e seis times. Ou seja, uma média de 10 gols por ano. Na retomada, o atacante tricolor já marcou 15 gols em 2016. Após voltar ao Brasil, foram apenas três gols pelo Ceará e sete pelo Atlético-GO. Em 2014, a contagem não passou de três: todos pelo Linense. O ano de 2015 foi o seu melhor desse período, mas atuando por equipes pequenas do Rio: Boavista e Macaé, que acabou rebaixado para a Série C do Brasileiro.

- Pra mim, é uma baita volta por cima (o título cearense pelo Fortaleza), a redenção mesmo, quase como uma ressurreição. Tinham me dado como morto. Eu não conseguia mais jogar por alegria, por prazer. Estava sendo só por obrigação, porque eu tinha que sustentar a minha família.  Mas, graças a Deus, desde que eu botei o pé aqui em Fortaleza, eu me recuperei. Até porque o problema, eu digo, não começou aqui, mas se intensificou depois que eu cheguei aqui (para jogar pelo Ceará). Porque veio uma crise atrás de outra, que culminou com a minha depressão. Então, acho que não tinha lugar melhor pra dar a volta por cima - comentou Anselmo.

Você recebe uma ligação da sua gerente dizendo que não entra dinheiro na sua conta há 10 meses. Você vai averiguar e vê que, além de não ter nada, ainda estava devendo
Anselmo

Mas essa volta por cima se deu mesmo quando o filho, Gregory, fez um pedido. O mesmo quem, ao lado da irmã, foi visita-lo no vestiário, antes da segunda partida da final do Cearense, com o Uniclinic. E o agradeceu pelo "carinho" do dia-a-dia. Emoção que fez com que Anselmo não se segurasse. 

- Eu achava que ia recuperar de qualquer maneira a situação, mas o que fez realmente com que eu me levantasse foi um pedido do meu filho, o Gregory: "Você vai comigo de novo em campo, no Maracanã?" O meu filho é viciado em futebol. Entende até mais do que eu de clubes, jogadores... Cara, eu devo muito a todos eles (citando também a filha Karolin). Quem me ajudou a superar, de verdade, tudo isso foram a minha esposa e os meus filhos - atestou.

Agora, de bem com a vida, campeão cearense, e artilheiro pelo Fortaleza com sobras, Anselmo diz que a equipe está preparada para encarar os desafios da Série C mostrando futebol de primeira, comandada pelo técnico Marquinhos Santos. Ele ainda ressalta que não teria feito tantos gols se o Leão do Pici não jogasse em conjunto. Só para se ter ideia, o jogador fez 15 gols nesta temporada, quase a mesma quantidade que todos os atacantes tricolores fizeram em 2015, que foram 17 tentos. 

- Eu sou muito grato pelos companheiros por tudo que eles tem feito. Não existe vaidade no time. Quantas chances eles têm criado para eu finalizar? Todos esses gols que fiz, tenha certeza, é 50% a 50%. Eu não posso citar nomes porque eu vou acabar esquecendo um ou outro (companheiro do elenco). Mas todos contribuem. Os zagueiros vão lá na frente. Até porque a marcação começa comigo na saída de bola do outro time. E quando a gente vai atacar todos vão juntos. Eu quero que eles (torcedores) possam eleger não só o Anselmo como herói, mas todo esse grupo, que está lutando demais, com toda a desconfiança, com a toda a dificuldade do começo. Ninguém acreditava na gente, mas nós nunca deixamos de acreditar.

E claro, o ídolo tricolor explicou como veio o 'hit' que tem embalado os seus gols: o "Baile de Favela".

- A música surgiu de uma brincadeira minha e do Edimar (zagueiro do Leão). Eu não conhecia a música toda. Só o refrão. E por eu gostar muito de funk, ele começou a me chamar só de baile. Pode ver, ele não me chama pelo nome. A gente fazia algumas brincadeiras no quarto, que ele concentra comigo. Não sei porque essa loucura toda, que eu fiz o gol contra o Ceará e essa música veio na cabeça. Pegou justamente por causa disso. Toda hora vem uma criança falar comigo, os meus filhos mandam mensagem sobre isso - ri.

Anselmo e todo o restante do elenco do Fortaleza se reapresentam na quinta-feira (12), quando começam a treinar de olho no jogo com o Flamengo, na quarta-feira (18), pela Copa do Brasil, às 21h45, no Estádio Raulino de Oliveira, em Volta Redonda. No primeiro encontro entre os dois, o Tricolor venceu por 2 a 1. E o atacante leonino deixou a sua marca.

 

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