12/05/2016 10h34 - Atualizado em 12/05/2016 10h34

“Doar meus óvulos quase arruinou a minha vida”

“O dinheiro era bom demais para rejeitar, até que isso destruiu meu corpo.” Em entrevista à Marie Claire americana, jovem revela o lado obscuro da doação de óvulos

“Doar meus óvulos quase arruinou a minha vida”
"EU NÃO ERA UMA VICIADA, EU ERA UMA DOADORA DE ÓVULOS. E MINHA VIDA TINHA VIRADO DE CABEÇA PARA BAIXO EM APENAS SEIS MESES" (FOTO: THINKSTOCK)
Créditos: Matéria Revista Marie Claire

“Jesus, Jen [Jennifer Billock], você está acabada”, Manny me disse. Eu estava cozinhando naquele dia, no restaurante onde trabalhava em Chicago. “Você está pálida. Deveria se sentar.”
Eu não conseguia focar no rosto dela. Minha visão me dava náusea, alternando entre embaçada e torta. Debrucei-me contra a parede.

“Não, não... Estou bem. Só preciso de um pedaço de pão.” Meu corpo já fraco deslizou pela parede. Um minuto depois, acordei no chão de ladrilhos. A equipe toda estava a minha volta, me olhando preocupada.

“Eu acho que deveria ir para casa”, disse enquanto eles me ajudavam a ficar de pé. Manny me acompanhou até o carro, me ajudou a entrar e, em seguida, me levou até meu apartamento. Subi as escadas do prédio de três andares tropeçando e me joguei na cama. E então, como vinha fazendo diariamente, duas vezes ao dia, durante a última semana e meia, peguei uma seringa e a preenchi com um líquido claro. Puxei um pouquinho de gordura perto do meu umbigo, fechei os olhos e enfiei a agulha. Injetei o líquido e imediatamente cambaleei de dor no local da injeção. Era como se tivesse sido queimada de dentro para fora. Descartei a seringa e deitei para um cochilo.

Eu não era uma viciada, eu era uma doadora de óvulos. E minha vida tinha virado de cabeça para baixo em apenas seis meses.

O ônibus 66 era minha tábua de salvação na cidade. Eu o usava todos os dias para ir e voltar do trabalho. Era um dia comum quando o avistei coberto por um anúncio colorido que dizia: “Mulheres com menos de 30 anos, doe seus óvulos e ganhe US$ 5 mil em poucas semanas.”

Eu era uma jovem recém-formada em uma escola de artes supercara, estava afogada em dívidas e odiava meu trabalho. Não passaram cinco minutos até que eu me visse pegando o celular e discando o número impresso no anúncio, ligando para aquilo que seria a minha salvação. Dois dias depois, eu estava sentada em um consultório de doação fazendo testes de personalidade, passando por exames psicológicos e tirando fotos para serem adicionadas à pasta de doadores, esperançosa de que futuros pais iriam chegar até mim.

Em uma semana, já tinha o meu primeiro “cliente”. O processo era fantástico. Simples de fazer, indolor - além das pequenas fisgadas sentidas duas vezes ao dia por algumas semanas -, sem náuseas. Bastava uma coleta laboratorial e o pagamento viria rápido. Foi bom – de uma forma pouco inconveniente, eu fiz algo maravilhoso para outra pessoa e ainda seria muito bem paga por isso.

Três semanas depois, um outro casal quis usar os meus óvulos. Me agarrei a isso novamente. Eu estava viciada em oferecer às pessoas as papinhas, os arrotos e os pacotes de fraldas que eles desejavam tanto, e ainda pagavam por isso.

O centro de doação sugeriu que eu esperasse ao menos um mês para deixar meu corpo voltar ao ciclo normal. Mas eu tinha empréstimos estudantis se acumulando em quase US$ 100 mil, e já tinha consultado três médicos diferentes que me garantiram um intervalo de uma semana como sendo suficiente entre uma doação e outra. Então, dei de ombros e aceitei novamente.

Passei as semanas seguintes imersa em um inferno particular, enfiando agulhas em várias partes do meu corpo. O líquido entrava como uma espécie de álcool em uma ferida aberta. O médico com o qual me consultei durante todo o processo me disse que provavelmente eu era alérgica à droga. Mas também disse que, como minhas reações não foram tão graves, não fazia sentido interromper o procedimento.

Eu não era uma viciada, eu era uma doadora de óvulos. E minha vida tinha virado de cabeça para baixo em apenas seis meses"


Decidi continuar, mesmo quando passei a desmaiar regularmente. Era como um relógio: uma hora após cada injeção, eu ficava tonta e apagava. Tudo ao meu redor girava sempre que eu tentava me levantar. Descobri mais tarde que não só era alérgica, como meu corpo respondia à droga com uma sobrecarga.

Cada doação de óvulo gera um risco de 10% de chance de desenvolvimento daSíndrome de Hiperestimulação Ovariana (SHO), quando os ovários incham por conta do excesso de produção de óvulos. Eu não sofri a consequência mais adversa da síndrome – a morte -, mas meu médico disse nunca ter visto tantos óvulos em uma única extração. A combinação da alergia com a sobrecarga dos ovários me deixou em um estado permanente de dor durante todo o processo.

Me obriguei a passar por isso, dizendo a mim mesma que era longo, mas logo chegaria ao fim. No dia em que fui para a extração, pude praticamente sentir uma bola escura de dor e piora da doença em meu corpo.

Para extrair os óvulos, o médico insere uma agulha oca até os ovários e usa a sucção para aspirá-los basicamente de dentro dos folículos ovarianos. Mas desta vez, algo deu errado. O médico escorregou. Ele encostou na parede do meu ovário e deixou um corte que se transformaria em uma cicatriz grossa no tecido.

Eu estava muito ocupada para perceber, saindo da sedação e louvando a enfermeira por magicamente saber que eu gostava de Sprite e biscoitos Animal Crackers.

Um novo erro se seguiu. Depois de várias horas, eu não estava nem perto de ter me recuperado. Ainda estava sentada na cama de hospital em transe, quando eles me colocaram sobre uma cadeira de rodas e me empurraram até a pessoa que me levaria para casa. Duas semanas se passaram e eu ainda não conseguia subir as escadas sem ajuda. Fui para o hospital e eles me disseram que havia acontecido um erro com a anestesia. Eu provavelmente havia tomado uma dose alta. Mas os efeitos iriam se dissipar com o tempo. Sem opção, voltei à rotina de casa, ônibus, trem e trabalho.

Um mês depois, eu estava de volta ao hospital, ainda mal. Finalmente, me informaram sobre a cicatriz. Eu tinha notado uma estranha sensação de aperto, algo sendo puxado em meu abdômen, não muito tempo após a doação. Mas como as cólicas eram um efeito colateral comum, tentei ignorá-las. Eu tinha ido a um festival, mas precisei ser carregada para fora, porque minha energia de repente de esvaiu. Fiquei pálida e desmaiei. Em casa, uma cãibra estranha veio como uma apunhalada de fogo e se espalhou por todo o meu abdômen. Desabei de dor.

Ainda não tentei engravidar. Estou com muito medo. Já vi amigas abortarem e se dissolverem em dor e depressão depois disso"

Uma espera de quatro horas, um ultrassom interno e uma tomografia computadorizada mais tarde, um médico da emergência me contou o que tinha acontecido: eu tinha um cistoformado no topo do tecido da cicatriz, e entrei em colapso porque ele estourou. Em silêncio, ouvi as opções que me restavam: ignorar e esperar por mais cistos, me submeter a uma cirurgia para remover o tecido e provavelmente ficar com mais cicatrizes, ou enfrentar uma cirurgia de retirada do ovário.

De qualquer forma, meu ovário havia sido danificado. De qualquer forma, eu enfrentaria dificuldades para engravidar em longo prazo. De qualquer forma, eu estaria ferrada.
Em última análise, optei por ignorar o problema. Eu continuo tendo cistos. Nenhum foi tão ruim quanto o primeiro, mas ainda é um lembrete constante de seus efeitos sobre a minha vida.

Ainda não tentei engravidar. Estou com muito medo. Já vi amigas abortarem e se dissolverem em dor e depressão depois disso. Poderia de bom grado abandonar a ideia de criar uma vida, quando eu sei que existe uma possibilidade maior de acontecer algum desastre? Não sei o que devo fazer. Eu simplesmente não estou pronta para isso ainda, o que para mim é um grande problema, já que não sei quanto tempo ainda me resta em relação à possibilidade de ter filhos. Essa possibilidade já pode ter se esvaído.

O estresse de não saber o quão fácil seria para mim dar à luz um bebê se tornou uma pressão constante da qual não consigo escapar. Mas esse é um fardo que preciso carregar, algo meu, resultado das minhas próprias decisões. Eu lido com isso todos os dias.

Vejo tanta cobertura positiva sobre doação de óvulos nos meios de comunicação. Ouço mulheres falando alegremente do alto de seus pedestais sobre como o processo é simples, que fico furiosa. Não é algo fácil de se passar. Às vezes, as coisas dão errado.

Minha única esperança é que as mulheres jovens comecem a pensar duas vezes antes de fazer uma doação. Sim, o dinheiro é bom e você tem a chance de fazer alguém feliz. Mas a que custo?

 

Voltar para o topo
COMPARTILHE ESTA NOTÍCIA Facebook Twitter