30/11/2015 11h11 - Atualizado em 30/11/2015 12h58

Julio Bressane adapta Borges em filme com Marjorie Estiano

Exibido no Festival de Locarno deste ano e na Semana dos Realizadores, no Rio de Janeiro, na semana que passou, “Garoto” marca o reencontro do cineasta Julio Bressane com o escritor argentino Jorge Luis Borges

Julio Bressane adapta Borges em filme com Marjorie Estiano
Imagem Reprodução/Divulgação
Créditos: Matéria G1

Trata-se de uma adaptação do conto "O assassino desinteressado Bill Harrigan", incluído no livro “História universal da infâmia” (1935). O conto, por sua vez, é livremente inspirado em Billy the Kid, o lendário fora-da-lei do velho oeste americano. Mas não se espere uma representação fiel do conto de Borges, nem muito menos do personagem que o inspirou. Bressane está mais interessado em captar questões transversais ao conto, reinventando-as na sua linguagem, por assim dizer, bressaniana. 

Autor de filmes marcados por referências à literatura e à filosofia (e à própria história do cinema), Bressane se mostra mais uma vez avesso ás convenções do cinema narrativo. Apenas tangenciando o original de Borges, o roteiro parte do encontro de um casal de jovens em uma floresta com algo de encantado. Ele (Gabriel Leone) fica calado, é só ela (Marjorie Estiano) quem fala: da vida, da família, de questões existenciais. Os dois fazem amor, e em seguida é cometido um crime, o que marca uma espécie de queda do paraíso.

Corte para uma paisagem de sertão nordestino (ou de deserto de faroeste). O casal reaparece, mas a narrativa se torna mais rarefeita, ambígua e fragmentada. Quase não há diálogos. Há uma sugestão de que os dois jovens representam as duas metades do protagonista do conto, seus lados masculino e feminino. Há também uma reflexão sobre a memória e a nossa percepção do tempo e da natureza. E, ainda, uma exploração de viés mitológico sobre o tema da cólera e o assassinato – e sobre a impossibilidade da redenção. Mas qualquer leitura é especulativa: o filme é deliberadamente aberto a interpretações.

A relação de Bressane com Borges é antiga. Em seu livro “Cinemancia” ele escreve um belo texto sobre o escritor argentino. Segundo o cineasta, para se evadir da dura realidade do peronismo, Borges ia buscar fora de seus contemporâneos, fora do espírito e dos gostos da época, influências que convinham à sua intuição, refugiando-se nos clássicos da literatura inglesa. Por sua vez, Bressane também se refugia frequentemente em personagens de outras épocas – São Jerônimo, Padre Antonio Vieira, Machado de Assis.


Mas, numa entrevista concedida a este jornalista na época do lançamento de “Dias de Nietzsche em Turim”, Bressane afirmou que no seu caso não se trata de evasão: “A escolha de meus temas é quase involuntária, são coisas que me dão prazer, das quais me sinto próximo e que compreendo, até por temperamento. Não é uma forma de evasão da realidade, porque para mim tudo faz parte do real: todo o passado, toda a memória, os sonhos que eu tenho, tudo isso é real.”

Na mesma entrevista, Bressane contou como conheceu Borges, mencionando o projeto de “Garoto”: “Conheci o Borges pelo telefone, em 1982. Quando ele veio ao Brasil, não fui vê-lo, porque não quis quebrar a relação misteriosa que eu mantinha com ele por telefone. Borges era um solitário, você telefonava e ele estava em casa. Eu tinha o projeto, que ainda vou realizar, de filmar um texto que escrevi a partir da lenda de Billy the Kid, chamado “O Garoto”. Borges tem um texto em “História Universal da Infâmia”, com uma visão extraordinária e original, uma leitura da infância de Billy The Kid, que ele retrata como um personagem negativo, um menino ruim que gostava de matar e morreu falando palavrões em espanhol. Aí liguei para ele querendo comprar os direitos do texto, consegui o telefone dele no catálogo, Calle Maipu. Atendeu uma governanta que tomava conta dele, Fanny, que ficou minha amiga por telefone. Todo mês eu ligava para ele, só uma vez ele me ligou, e minha filha, que estava com 5 anos, atendeu: “É o senhor Borges”. Saí correndo para atender. Uma vez ele me disse que com o dinheiro que eu gastava nas ligações eu poderia comprar suas obras completas.”

Vigésimo-nono longa-metragem de Julio Bressane, “Garoto” integra um projeto chamado “Tela Brilhadora”, para a produção de filmes de baixo orçamento, que também resultou nos longas “O Espelho”, de Rodrigo Lima, “Origem do Mundo”, de Moa Batsow, e “O Prefeito”, de Bruno Safadi.

 

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