01/12/2012 18h38 - Atualizado em 01/12/2012 18h39

Às vésperas dos 70, Marília Pêra diz que os ciúmes atenuam com tempo

Marília Pêra está feliz. A um mês de seu aniversário, é estrela do musical “Alô, Dolly”, e esta gravando uma série para a Globo

Às vésperas dos 70, Marília Pêra diz que os ciúmes atenuam com tempo
Marília usa: anel de flor Miriam Kimelblat R$8.250 (Fashion Mall); anel de pérola Odara R$4.900 (Rua Dias Ferreira, 417/3º piso); aliança arquivo pessoal; jaqueta R$3.290 e calça R$2.198, ambos Animale (Fashion Mall). Coordenação de moda: Melina Dalboni / Produção: Daniela Oliveira / Beleza: G.Junior (Gloss) Foto: Daniela Dacorso / O Globo A atriz ainda vai ser homenageada semana que vem, em Lisboa, cantando “Herivelto como conheci”.

Você faz 70 anos em janeiro...

— Ah, não vamos falar sobre isso (risos). Quero falar sobre o Miguel. Faço o “Alô, Dolly” com o Miguel, duas sessões na quinta, uma na sexta, duas sessões no sábado, e uma no domingo. Quer dizer, depois de milhões de anos estou fazendo seis sessões semanais. Fazendo uma opereta duas vezes por dia. Aí, segunda, terça e quarta eu vivo o “Pé na cova”, que também é do Miguel. Só que em “Alô, Dolly” eu faço uma mulher que quer se casar com ele, e se casa com ele, e no “Pé da cova” eu faço uma mulher que foi casada com ele, que tem dois filhos com ele, estão separados mas moram juntos.

Então, na sua vida hoje é Bruno (seu marido) e depois Miguel?

— Nesta ordem (risos).

O Bruno é um encanto...

— Ele é muito educado, e resolve muitas coisas. Ele desata nós.

Tem alguma coisa que ainda deseja fazer?

— “Yerma”, do García Lorca, gostaria de ter feito. Hoje, só se fosse licença poética (risos). Enfim, alguns personagens passaram. Já comecei até a escrever um stand up, falando do intérprete, o pobre coitado do intérprete, que depende de milhões de pessoas para chegar até o público. Mas não tenho a disciplina de me sentar todo dia para escrever. Você deve ter, né?

Jornalista costuma funcionar com prazo de entrega (risos). No filme “Mephisto”, o protagonista diz que o ator é uma máscara entre as pessoas. Você concorda?

— O intérprete não é nada, né, coitado. Ele depende do autor, do cenógrafo, do figurinista, do diretor, do maquiador, do visagista. O ator não tem direito a fazer nada. Ele mal precisa decorar o texto. Porque as cenas são tão picadas. É uma bela máscara. Se ele ficar parado ali, com o áudio da voz, pode ficar lindo. Ele é um pobre coitado, o ator. Ninguém imagina o quanto o autor é reprimido em sua alma para representar o personagem.

A marcação?

— A marcação é o de menos.

O ator deve ter humildade para às vezes carregar trabalhos que não gosta, né?

— Não que não goste. Talvez pudesse ter outras ideias sobre aquilo, mas ele tem que se calar. Fechar boca, nariz, olhos, ouvido, tudo, e obedecer. Eu sou muito reverente ao ator e ao diretor. Eu sou hierarquicamente preparada. Eu sofro muito com isso. Sou disciplinada. Obedeço. Fui criada assim. E hoje em dia não é muito assim que se vê. O ator depende muito. Por isso é que eu quero escrever. Preciso.

Você é ou já foi ciumenta?

— Eu acho que eu mudei com essa história de ciúme com a idade. Eu era muito ciumenta. Quando eu tinha 30, 30 e poucos, algumas mulheres me abalavam. Mas com o tempo o que acontece é que eu vou e me relaciono com elas, e o fato de o Bruno conhecê-las não me incomoda.

Então, o segredo é ficar amiga?

— Não. O segredo é ficar mais velha (risos).

Quando viaja, tem algum lugar, restaurante ou espetáculo a que você sempre volta?

— Eu vou a ópera. Quando viajo, marco sempre ópera e concertos. Esse é o meu gosto. O Bruno em geral vai a uma, eu vou a oito. Quando viajo com Guga (o empresário e gourmet Luiz Carlos Ritter), Halbouti (o advogado Roberto Halbouti) e Nélida (a imortal Nélida Piñon), são meus companheiros queridos.

Vocês (Guga, Halbouti e Nélida) foram ao festival de Bayreuth juntos. É bem rígido o programa, não é?

— Se você tossir, pode ser assassinada lá dentro. Uma senhora passou mal atrás da Nélida, que deu um ataque, pedindo ajuda. O alemão ao lado: “Shiuuu!” Não tem ar-condicionado, um calor de 40 graus. O Halbouti levou um leque, começou a abri-lo, quando os vizinhos olharam feio para ele. Sabia que foi Wagner que desenhou as cadeiras para serem incômodas de propósito? Não queria que ninguém dormisse durante a apresentação. É um aprendizado de mobilidade.

E comida, do que você gosta?

— Sempre fui magra, magra, magra. E sempre ouvia na minha infância inteira “Come, menina, come”. Na gravidez, engordei um pouquinho, oito quilinhos. O meu tipo é magrinha, e enjoadinha. Tenho pena da galinha (risos). Fui a um matadouro, nunca mais vou comer boi na vida. Não quero comer nada que tenha sofrido para virar alimento. Hoje em dia estou cortando o leite, o glúten. Como muito soja, muito grão. Meus restaurantes preferidos, tenho vergonha de falar com você, que deve comer de tudo, mas os restaurantes que a gente vai almoçar são o Celeiro e o Ráscal.

Você disse uma vez que gosta de pesar 50 quilos...

— Ah, acho que 47, 48 quilos (risos)... Menos peso para os joelhos.

Me lembro de “Chanel”. Vi duas vezes. Não acreditei que pudesse ser tão incrível uma segunda vez.

— Já me disseram que sou uma médium consciente. Em “Chanel”, fiquei com dor na coluna, mas não incorporei as coisas que ela pensava, os sentimentos dela, não. Eu sei se o refletor queimou, se algo está fora da ordem no palco. Há atores que ficam tão incorporados pelo personagem que não veem nada em volta: dão cotovelada no colega, derrubam cenário... São os médiuns inconscientes (risos).

Uma médium consciente se cuida como fisicamente?

— Eu faço em casa exercício de fortalecimento de pés, braços. Ando na piscina para fortalecer as pernas. E tomo 15 minutos de sol. Você vê que eu estou queimadinha, mas é aos pouquinhos.

Eu li que você ganhou da Elis Regina em um teste para musical...

— Eu tinha 18 anos, era bailarina, estava no Chile como bailarina. Meu pai ligou para contar que estavam abertos os testes para “Como vencer na vida sem fazer força”, que aliás é um musical americano que vão fazer de novo, e é o papel da mocinha que está fazendo teste. Eu vim correndo, cantei todas as músicas que tinha escutado a Bibi Ferreira cantar em “My fair lady”. Minha voz não era melhor do que a da Elis, mas eu tinha experiência. No mundo, nunca vi ninguém cantando como ela. Não me falem de Madonna que eu te falo de Elis (risos). Este tipo de mulher que não nos abala, não é, Ana? Madonna, Elis (risos).

Ricardo, seu filho (que Marília teve aos 18 anos), está com você em “Alô, Dolly”. Muita emoção?

— O Miguel me deixar cantar com meu filho em todas as sessões é um presente. Agora, meu filho é Ricardo Pêra, antes, era só Graça Mello.

O pai dele morreu num acidente de carro, não foi?

— Sim, quando ele tinha 8 anos. A morte... Uma coisa tem me abalado muitíssimo no último mês. Uma pessoa como Ney Latorraca, que me ligava duas ou três vezes por dia, e ficava uma hora e meia ao telefone. Eu olho para a Lagoa e penso, um trecho da Lagoa poderia se chamar Ney Latorraca. Enquanto ele esteve consciente no hospital, eu fui visitá-lo todos os dias, antes do teatro. Depois que ficou inconsciente, não me deixaram ir. Eu sinto muitíssimo. Roberto Talma está na mesma no hospital. Essa coisa louca que foi morrer Marcos Paulo e Alcione Araújo. Alcione, amigos de tantos anos. Isso, Ana, é uma barafunda na minha cabeça. Vou para o cemitério, vejo meus amigos naqueles caixões, depois vou para “Pé na cova”, em que eu e Miguel somos donos de uma funerária. Havia cenas com caixões, os figurantes deitados, e a gente ali, com aquele texto iconoclasta falando dos mortos. É uma consciência da presença da morte, muita tristeza por causa dos amigos, mas com muito bom humor por causa do Miguel. Uma loucura. Mas é interessante.

Foto/Matéria: DANIELA DACORSO / O GLOBO

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